“Os trinta anos do Partido dos Trabalhadores” Por Paulo Marques

by luciouberdan on 10/02/2010 · 1 comment

in Partidos Políticos,Paulo Marques

Hoje o Partido dos Trabalhadores completa 30 anos de existência. Fundado no contexto das lutas pela democratização do país no final da década de 70, o PT não era uma novidade apenas no Brasil, rompia com o modelo monolítico dos tradicionais partidos de corte stalinista e ao mesmo tempo negava a forma “parlamentar” das “elites políticas” que caracterizavam os partidos social–democratas. Tornou-se, por isso, uma referência também na esquerda mundial. Um partido de esquerda que nasceu da resistência à ditadura militar, com identidade de classe e reivindicando o socialismo como estratégia.

Colégio Sion. 10 de fevereiro de 1980. Fundação do PT. A Lélia Abramo (à esq.). O historiador Sérgio Buarque de Holanda, Olívio Dutra, Lula e Jaço Bittar. Foto Arquivo Central da Unicamp

Por *Paulo Marques.

A palavra de ordem “Um partido sem patrão”, indicava o anti-capitalismo que trazia em seu DNA. A forma de partido construído a partir dos núcleos de base animavam uma geração de militantes que pela primeira vez experimentavam uma possibilidade de prática política radicalmente democrática. Ali naquele 10 de fevereiro de 1980 estavam militantes da esquerda cristã, das Comunidades Eclesiais de Base, a intelectualidade marxista, militantes que voltavam do exílio, ali estavam ao lado de jovens do movimento estudantil históricos militantes da esquerda brasileira como Apolônio de Carvalho e Mário Pedrosa. A confluência do que de melhor a esquerda brasileira havia produzido aceitava o desafio de construir algo novo que refletia anos de luta social e história de resistência.

A democracia como prática e valor intrinsecamente vinculado ao socialismo é a novidade da proposição do “socialismo petista”. A construção de uma nova cultura política na esquerda brasileira que se refletiu também nas práticas inovadoras do partido quando ocupou pela primeira vez os espaços institucionais com o “Modo Petista de Governar” também constituiu uma inovação. O PT ocupava os espaços da institucionalidade burguesa não para gerenciá-lo mas para, de forma dialética, demonstrar as contradições da democracia com o capitalismo. O radicalização da democracia como projeto e prática cumpria essa tarefa de luta contra-hegemônica. Colocava assim na ordem do dia o processo de disputa de hegemonia nos interstícios do estado burguês, numa estratégia de enfrentamento e luta política já teorizada por Gramsci.

Três décadas depois o PT governa o Brasil, nesse curto período, se pensarmos em perspectiva histórica muita coisa mudou, mudou o partido, mudaram os militantes, mudaram os programas, talvez a estratégia. Muitos abandonaram o partido por descrédito, decepção, outros continuam. Para os que o abandonaram, o PT cumpriu o roteiro tradicional dos partidos de esquerda da Europa, de uma origem de classe avançou para a institucionalidade, ficando preso no que Robert Michels chamou de “Jaula de ferro da Oligarquia”, um processo sem volta que colocaria o partido no mesmo patamar dos partidos tradicionais, baseado no poder dos dirigentes, lideranças e parlamentares, sem nenhuma influência ou poder das bases. Para os que continuaram e acreditam no PT, ele ainda é o instrumento das classes exploradas para avançar nas transformações e mudanças que o país ainda necessita.

É inegável que o PT mudou e também que ele contribuiu muito para as transformações do país. Se não existisse o PT, necessariamente teria que ser criado, talvez a questão não seja saber se o PT “traiu” a classe trabalhadora e sucumbiu ao capitalismo, a questão é saber se nestes trinta anos o partido contribuiu ou não para o avanço das lutas emancipatórias da classe trabalhadora, e o que ainda tem ele a contribuir nos próximos 30 anos. Se o partido foi capaz de criar uma nova cultura política na esquerda, resgatar a democracia como elemento estratégico da luta anticapitalista, as demandas do presente, surgidas a partir da profunda crise civilizatória do capitalismo, colocam outros desafios ao partido, vinculadas as transformações, principalmente no mundo do trabalho e da produção. A capacidade de responde-las é o desafio que esta colocado.

Todavia, é inegável que o maior desafio do PT ao completar seus 30 anos é a capacidade de continuar sendo referência para a organização da luta social, anti-sistêmica, e das novas demandas dos explorados(as), o que requer o engajamento na construção de uma agenda anti-capitalista que, paralelo aos espaços conquistados na institucionalidade, organize a ampla massa de excluídos do sistema para que adquiram força política para construção de um projeto de caráter emancipatório, e por que não dizer Socialista. Sendo assim a tarefa histórica do partido, qual seja, organizar a classe trabalhadora e contribuir com sua emancipação continua vigente.

Se pensarmos que isso ainda é possível, não temos dúvida em desejar longa vida ao Partido dos Trabalhadores.

*Graduado em História e Mestre em sociologia(UFRGS), doutorando na Universidade de Granada/Espanha sobre a organização política dos trabalhadores da Economia Solidária, é da Setorial Nacional de Economia Solidária da DS e do Coletivo Brasil Autogestionário.

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1 Geraldino Fraga 23/02/2010 at 23:32

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