Em uma iniciativa louvável, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviços) reuniu no dia 3 e 4 de novembro em Salvador/BA, a representação de 19 movimentos sociais brasileiros para discutir os efeitos das “diversas crises mundiais (econômica, climática, alimentar) e à diminuição de recursos da cooperação internacional para o Brasil e a América Latina”. O encontro serviu igualmente para avaliar o governo federal. Ao fim do encontro, divididos em 4 grupos de trabalho, os movimentos sociais redigiram cartas para a CESE.
Animar momentos de debate dos movimentos sociais é de grande necessidade e importância, ainda no início do ano já problematizavamos aqui no blog a importância do prórpio FBES chamar um seminário sobre a crise, os efeitos dela na Economia Solidária, bem como as tarefas do movimento de ES frente ao momento de crise no Capitalismo.
Nessa atividade fundamentalmente política que reuniu as direções dos movimentos sociais, o FBES enquanto “instrumento do movimento de Economia Solidária” estava representado por Daniel Tygel, que participou do grupo de discusão número 3 (Carta do grupo abaixo).
Atividade da CESE.
CARTA GRUPO 3 – Salvador, 04 de novembro de 2009
Cara Parceira,
Ao longo dos seus 36 anos, a CESE tem sido uma entidade estratégica para o apoio e fortalecimento dos movimentos e organizações populares em todo o Brasil. Nesse tempo, a relação entre CESE e movimentos sociais tem se balizado pela solidariedade, paciência pedagógica e compromisso com experiências de mobilização, formação e luta por direitos, na perspectiva da efetiva transformação social.
O apoio a experiências inovadoras, aos movimentos sociais emergentes e a sistematização de práticas sociais referenciais caracterizam a atuação institucional, compromisso e opção política da CESE, contrapondo a lógica de relação estritamente econômica e de resultados priorizada por outras agências de apoio e fomento. A mediação de recursos financeiros para pequenos projetos e os processos de articulação e diálogos preservam coerência à sua missão institucional e às reais demandas dos movimentos sociais, mantendo o foco nas organizações que constroem cotidianamente movimentação das lutas populares e tendo compreensão de suas pautas.
A CESE deve ficar atenta para não perder o foco de apoio às lutas dos movimentos sociais, mesmo se expandir a abrangência de suas políticas referenciais. É fundamental a percepção da relação entre campo e cidade. Ainda deve ter atenção, para além das políticas referenciais baseadas em direitos, ao impacto das múltiplas crises no contexto global atual, que se caracterizam como crise civilizatória: ambiental, financeira, energética e do mundo do trabalho. Deve ter prudência quanto às falsas soluções para as questões ambientais, que mercantilizam os recursos naturais (a exemplo do mercado de carbono), atuando no apoio às iniciativas de lutam por reais transformações no modelo hegemônico de desenvolvimento. No tocante à sua metodologia de apoio e dada a atual conjuntura, deve evitar a constituição de ambientes de disputas entre organizações por recursos.
Nos próximos cinco anos, que tal a CESE:
a)Expandir as políticas referenciais, incorporando duas novas: meio ambiente e informação e comunicação;
b)Na política referencial do direito à terra e à água, explicitar o apoio a projetos relacionados com energia e alimentos;
c)Com relação ao público, incluir as populações afetadas pelos grandes projetos, frutos de iniciativas de desenvolvimento e infra-estrutura, tais como: PAC, IIRSA e BNDES.
d)Ampliar a sua atuação de formação para incorporar ações no campo da disponibilização de informação estratégica para as lutas nos territórios e comunicação popular;
e)Nas suas ações, construir mecanismos de apoio continuado à sustentação de organizações do campo popular, dada a conjuntura atual e de necessidade de capacidade de articulação desses atores;
f)Nas suas ações de articulação com as Igrejas, levar às mesmas e encampar as pautas, propostas e campanhas dos movimentos sociais;
Gostaríamos de saber:
1) Como a CESE avalia a perspectiva de ampliar sua captação de recursos junto ao poder público?
2) Como a CESE avalia a perspectiva de ampliar sua captação de recursos junto ao campo de responsabilidade social empresarial?
3) Dada a perspectiva de redução do seu orçamento e criminalização dos movimentos sociais, como a CESE avalia e pretende enfrentar a possibilidade de criação de disputas entre as organizações populares?
4) A CESE tem conseguido executar a totalidade dos seus recursos financeiros para apoio a pequenos projetos, nos últimos anos? Se não, quais os entraves encontrados?
5) Como a CESE avalia o papel, interesses e influência da cooperação internacional nas suas ações?
6) Qual a distribuição do volume de recursos por perfil de projetos apoiados nos últimos anos? Qual a avaliação da CESE a respeito e quais as tendências percebidas?
Para as Igrejas que compõem e agências que apóiam a CESE, gostaríamos de dizer que as desigualdades e injustiças perduram no país de forma estrutural. É preciso uma leitura política mais aprofundada do governo Lula e da falsa idéia de que as questões sociais estariam se resolvendo. Isso, somado à criminalização dos movimentos sociais, nos preocupa quanto ao futuro da nossa capacidade de lutar pela transformação social e conquista dos direitos fundamentais. Gostaríamos de saber também como as Igrejas e Agências vêem a cooperação internacional no atual contexto.
E para as Igrejas que compõem a CESE, gostaríamos de afirmar que nos preocupa também o recuo da posição profética que as igrejas cristãs assumiram em períodos recentes da história brasileira. Além disso, perguntamos: como as Igrejas que compõem a CESE têm incorporado e assumido as campanhas propostas pela mesma?
Por fim, para as Agências que apóiam a CESE, perguntamos: como têm enfrentado a queda de arrecadação oriunda de suas bases?
Ressaltamos a alegria de ter participado desses agradáveis momentos com companheiros e companheiras que partilham dos mesmos valores e ideais. Contem conosco!
Em solidariedade,
Luciana – MMC, Ruben – CPT, Ivanei – MAB, Jaime – MST, Emanoel – CUT, Daniel Tygel – FBES
Se gostou acima, leia mais abaixo:
- Seminário Estadual dos Movimentos Sociais – Estratégias da Participação Social no FSM 2009
- Interface: Uma revista sobre e para movimentos sociais (Economia Solidária RS/Post 221)
- Movimentos Sociais, Economia Solidária e o protagonismo das ONGs: Um novo padrão de ação coletiva? por Paulo Marques
- Movimento de Economia Solidária Gaúcho prepara seminário estadual no fim de Março/2009 (Economia Solidária RS/Post 159)
- I Encontro Sulamericano de Populações Afetadas pelos Projetos Financiados pelo BNDES.
- Fundo Brasil de Direitos Humanos disponibiliza recursos para projetos de organizações da sociedade civil (Economia Solidária RS/Post 302)
- Economia Solidária fará parte da especialização em educação no campo no Pará (Economia Solidária RS/Post 113)
- Dia 30, América Latina nas ruas contra a crise: Onde está o movimento da Economia Solidária? (Economia Solidária RS/Post 429)
- “Só a luta faz valer: Por uma ação política afirmativa do movimento da Economia Solidária” por Analine Specht e Paulo Marques
- FSM – Cartas dos Movimentos Sociais – POA e Bahia
















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