A luta contra a fome deve contar com aqueles e aquelas que a sofrem – Fórum dos Movimentos Sociais paralelo a Cumbre da FAO em Roma – 13/11/09 – Esther Vivas*
Tradução de Paulo Marques.
Mais de 600 delegados e delegadas de organizações camponesas, pescadores, consumidores críticos, mulheres, jovens… se encontraram estes dias em Roma no Fórum dos Movimentos Socias para debater e estabelecer estratégicas conjuntas de ação para enfrentar a grave crise alimentar que afeta a mais de 1 bilhão de pessoas em todo o planeta, um em cada seis habitantes, especialmente nos países do sul.
O Fórum coincide com a Cumbre mundial sobre segurança alimentar 2009 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, FAO, que começa na próxima semana. Ontem(13 de novembro), na praça Campidoglio, no centro de Roma, celebrou-se o ato de abertura do encontro, dedicado aos povos originários, representantes das comunidades maorí, mapuche e dakota, entre outros, nos recordaram que “nós não vendemos a mãe terra” e que “a luta contra a fome não pode ser levada a cabo sem contqar com aqueles e aquelas que a sofrem e quem trabalha com a terra”.
Quatro serão os eixos temáticos do Fórum. O primeiro analizará o monopólio existente na cadeia agroalimentar, em mãos de umas poucas empresas multinacionais que acabam determinando nosso modelo alimentar, assim como o papel das instituições internacionais, voltadas a estes interesses corporativos.
Um segundo eixo de trabalho abordará a crescente privatização dos recursos naturais: a terra, a água, as sementes, as zonas pesqueiras tradicionais, a agro diversidade… Em concreto, uma preocupação central no Fórum é a crescente dinâmica de apropriação de terras por parte de empresas privadas ou Estados que compram terras de outros países para assegurar a produção de alimentos e/ou a especulação com os mesmos às custas do direito a alimentação das populações destes territórios.
As políticas governamentais e internacionais agrárias, pesqueiras e pecuárias, e seu apoio incondicional a agroindustria, será outro dos eixos centrais, assim como as alternativas que são propostas pelos mais diferentes movimentos sociais. Qual agricultura pode esfriar o planeta? Qual solidariedade entre campo e cidade? Qual modelos alternativos de comercialização? Qual é o papel das mulheres, camponeses, comunidades rurais na construção da soberania alimentar? Estas são algumas das questões a abordar em um terceiro eixo de trabalho.
Finalmente, o acesso aos alimentos é outra temática central. Hoje, a crise alimentar é resultado da impossibilidade de amplas parcelas da população poderem adquirir comida. Se trata de um problema de acesso, apesar do discurso oficial das instituições internacionais e das empresas que nos querem fazer crer que se trata de um problema de produção, que será resolvido com uma nova revolução verde, mais agricultura industrial, transgênicos, etc… Frente a crescente descamponesização do campo. Como vamos alimentar o planeta? Frente a privatização dos recursos naturais, como reapropriarnos de nossos sistemas agrícolas e alimentares?
Os participantes, organizados em quatro grupos de trabalho, abordarão cada uma destas problemática para propor alternativas e propostas concretas de ação que serão apresentadas na Cumbre Mundial sobre Segurança Alimentar da FAO. O Foro dos Movimentos Sociais já começou, o futuro da alimentação ainda está em nossas mãos.
*Esther Vivas é autora dos livros “Supermercados, não obrigada” (Icaria, 2007) e “Para onde vai o comércio justo?”(Icaria, 2006), dirigente do partido Izquierda Anticapitalista (IA) da Espanha e Coordenadora da Rede de Consumo Solidário da Catalunha. Esther participa do Fórum dos Movimientos Sociais paralelo a Cumbre Mundial da FAO sobre segurança alimentar em Roma (Italia).
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