Pois é gente, nesta semana atrasou o envio de notícias daqui de Sabojiú porque passei o último sábado participando da Assembléia de Comunicação Social. No final de semana que passou foi realizada a rodada local. Isto é, as assembléias por bairro. É o início do processo de revisão do Contrato Social de Comunicação que segue com assembléias municipais e conclui-se com a Assembléia Geral de Comunicação Social. É que, de dois em dois anos, a população avalia conteúdo, forma e desempenho dos meios de comunicação de massa para adequação do Contrato. O dito contrato é um documento, com força de Lei, que contém as normas a serem seguidas pelas empresas coletivas e públicas de comunicação (TV, jornal, rádio, revistas, etc.).
O Contrato Social de Comunicação também deve ser obedecido pelas empresas coletivas de comunicação. As principais são das grandes associações corporativas de energia e dos transportes. Só agora me dei conta que não há empresa privada de comunicação em Sabojiú.
No intervalo da assembléia, procurei o jornalista Abelardo Chácara Barbosinha para tirar algumas dúvidas. A primeira foi sobre a proibição de existir empresas privadas de comunicação social em Sabojiú. Barbosinha, sempre muito eloqüente, abriu os braços e exclamou:
- Tu tá louco? Meio de comunicação é coisa muito séria para ficar na mão de meia dúzia. Isto pode colocar em risco a democracia, a sociedade. Há vários motivos para que o Estado controle a comunicação social, seguindo as definições que o conjunto da sociedade expressa no contrato que estamos revisando agora. Fundamentalmente são dois.
- Vamos lá, Barbosinha, o primeiro motivo.
- Qual é a essência da empresa privada? O que garante sua sobrevivência?
- O lucro.
- Certo. O que uma empresa privada tem que fazer para obter lucro?
- Vender seu produto ou serviço pelo melhor preço e maior quantidade possíveis.
- Correto. Qual é o produto de um meio de comunicação privado?
- Divulgação de fatos e eventos. Notícias.
- Como as pessoas compram as notícias? O faturamento de uma TV vem da venda de suas notícias?
- É. Não. Vem da venda de tempo para propaganda.
- Então a sustentação financeira de uma TV vem das empresas anunciantes e não seus telespectadores e telespectadoras?
- Sim. Vem dos anunciantes, então.
- O interesse dos anunciantes é que o maior número de pessoas assista sua propaganda. Certo?
- Certo.
- E para a TV cobrar mais caro pelo seu produto, isto é, o tempo de propaganda …
- … a TV tem que ter grande audiência. Grande Ibope. Opa! É por isso que as maiores empresas privadas de comunicação também são as donas dos maiores institutos de pesquisa de opinião pública?
- Brilhante, Leboutte.
- Portanto, o conteúdo de uma TV comercial não tem como objetivo prestar um serviço à sociedade. Tem como objetivo prender as pessoas na frente da telinha. Passivos. Não tem qualquer interesse em informar verdadeiramente ou desenvolver cidadania, mas sim motivar o consumo dos produtos anunciados, né?
- É. E já que tu mesmo tocaste no assunto, vamos ver o segundo motivo. O mais nocivo. Nocivo porque é estético, ético, moral e ideológico. É o conteúdo necessário para prender o povo na frente da telinha (ou do alto-falante ou das páginas ou do monitor).
- Pra fabricar consumidores e consumidoras.
- De produtos e de idéias. Não podemos desprezar o poder dos elementos superestruturais na indução nas ações das pessoas. A criação dos valores de como as coisas devem ser feitas. O certo e o errado, a virtude e o pecado, o justo e o crime, o bem e o mal, o mocinho e o bandido, o coletivo e o individual, o público e o privado, etc. Observe que a “embalagem” das idéias a serem absorvidas pelos telespectadores e telespectadoras, hoje, se baseia em escândalos e desgraças. A alegria, felicidade e sucesso estão nos produtos anunciados, direta ou indiretamente, e não na vida real.
- Aí entram os institutos de pesquisa. Conhecer em tempo real a tal “opinião pública” para produzir os programas a as propagandas. Quanto mais ideologizadas estiverem as pessoas à ética e à moral do capitalismo, maior e lucrativo será o negócio da comunicação social enquanto esta se torna a mais importante máquina ideológica e moral que o capital pode lançar mão para seu benefício. Ciclo do ovo e da galinha. Caraca! Olha a importância social da programação infantil e juvenil!
- Está justificada a necessidade do povo, através de mecanismos verdadeiramente democráticos, exercerem controle dos meios de comunicação de massa?
- Perfeitamente, Barbosinha. Mas, e a liberdade de expressão?
- Estás te referindo à liberdade das pessoas receberem informações relevantes para as suas vidas ou da liberdade de alguns donos de empresas ditarem o que o povo deve saber, ou pior, pensar? Quer entrar na avaliação do risco de influência eleitoral ou de policiamento religioso que pode sofrer a sociedade se uma emissora de televisão fosse propriedade de alguma entidade religiosa. Coisa de idade média. Caça às bruxas. Vá de retro, satanás!
- Seria catastrófico para um Estado laico e verdadeiramente democrático. Deus me livre!
Vamos aos falando.
Abraços.
Sorte na Luta!
Leia mais:
11/10/2009 – “A produção artística em Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
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26/09/2009 – “O Escritório de Registros” de Sabojiu – Por Paulo Leboutte.
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12/09/2009 – “O jubileu do Áureo em Sabojiú”
05/09/2009 – “O sistema de saúde em Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
29/08/2009 – “O transporte público em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
22/08/2009 – “A produção de Biodiesel em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
15/08/2009 – “A doação de órgãos em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
08/08/2009 – “A propriedade intelectual em Sabojiú”
01/08/2009 – “A organização corporativa empresarial e do trabalho em Sabojiú.” Por Paulo Leboutte
25/07/2009 – “Notícias de Sabojiú(III)” Por Paulo Leboutte.
18/07/2009 – “Notícias de Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
11/07/2009 – “Notícias de Sabojiú – a chegada” Por Paulo Leboutte.
04/07/2009 – Notícias de Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo.
PAULO LEBOUTTE é gaúcho de Canoas, sindicalista e com longa história no Sindipolo e na CUT Metropolitana de Porto Alegre. Em 1998 ajuda na implementação das políticas de Economia Solidária na gestão Olívio e Rosseto/PT. Em 2003 integra a equipe da ITCP no Rio de Janeiro, e em 2005 assume o projeto Etnodesenvolvimento Econômico Solidário das Comunidades Quilombolas da Secretaria Nacional de Economia Solidária. Exímio e observador viajante, Leboutte cultiva fortes laços com o Les Alternatifs Francês e atualmente encontra-se em Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo. De lá, Leboutte escreve ao Brasil Autogestionário contando como organiza-se social e economicamente o lugar onde a autogestão é a base da organização da sociedade. Acompanhe “Notícias de Sabojiú” Por Paulo Leboutte , aos sábados ou clicando AQUI.
Se gostou acima, leia mais abaixo:
- Agência do Trabalhador em Sabojiu – Por Paulo Leboutte
- Minha chegada a Coopercromos – Por Paulo Leboutte.
- “O Escritório de Registros” de Sabojiu – Por Paulo Leboutte.
- “A produção artística em Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
- “A doação de órgãos em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “O jubileu do Áureo em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “A organização corporativa empresarial e do trabalho em Sabojiú.” Por Paulo Leboutte
- “A primeira semana de trabalho na Coopercromos” Por Paulo Leboutte
- “O transporte público em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “O orçamento público em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.

















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Grande Leboutte! Bateu saudade. Procurei, achei. Só não consegui ler todos os artigos, os links não estavam legais.
A propósito: o que vem a ser “Sabojiú”???
abração
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