Entrevista exclusiva de Paulo Marques do Brasil Autogestionário, com Esther Vivas, dirigente do partido Izquierda Anticapitalista (IA) da Espanha e Coordenadora da Rede de Consumo Solidário da Catalunha.

Esther Vivas, dirigente do partido Izquierda Anticapitalista (IA) da Espanha e Coordenadora da Rede de Consumo Solidário da Catalunha

Leia a Iª parte da entrevista AQUI.

Nessa entrevista exclusiva para o BA, que vamos publicar em duas partes (06 e 07/10), Esther fala do surgimento do movimento de comércio justo e consumo solidário, as disputas entre dois campos antagônicos do movimento, as experiências dos grupos e cooperativas; a relação com os movimentos sociais e com a esquerda anticapitalista. - Paulo Marques.

ENTREVISTA – Parte II.

No movimento existe alguma experiência de cooperativas de produção?

Aqui se começaram a realizar algumas tentativas de que os consumidores venham trabalhar a terra, mas essas tentativas são ainda muito frágeis. O que é interessante a nível de estado espanhol é uma experiência das Cooperativas BAH – Bajo el Asfalto está la Horta”. É interessante porque é um dos maiores grupos  de consumo e cooperativa a nível de Estado Espanhol e que tem produtores em seu meio, produtores e camponeses.

Como se dá a relação do movimento de comércio justo como outros movimentos sociais e sindicatos na Espanha?

A nível de Estado espanhol trabalhamos com um sindicato agrário que se chama COA- Coordenadora de Organizações Agrárias, que é um dos maiores sindicatos de trabalhadores rurais da Espanha, e é um sindicato de esquerda, que está muito vinculado com a Via Campesina. E com nós como rede de consumo solidário, como “Espaço de Consumo Solidario”, trabalhamos muito com eles. Agora estamos impulsionando no Estado espanhol um processo que se chama “Aliança por la soberania alimentaria de los pueblos”, que é um processo vinculado ao Foro Internacional pela Soberania Alimentar,  realizado em 2007 no  Mali e  a ação de redes pela soberania alimentar em âmbito local. Estamos articulando esse processo desde o Estado Espanhol, com a participação do sindicato COA, ONGs, redes e vários atores.

Como se articula o comércio justo com as redes de economia solidaria como a REAS( Rede de Economia Alternativa e Solidaria), por exemplo?

Nós aqui deste setor mais radical do comércio justo que trabalha esta lógica da economia solidaria, da soberania alimentar, curiosamente é um setor que tem estabelecido  bastantes vínculos com quem trabalha a favor da soberania alimentar, mas não temos um papel central nas  redes de Economia Solidaria do Estado Espanhol. No Estado espanhol existe uma Rede bastante potente que se chama REAS. Aqui na Cataluña se chama  Xarxa de Economía Solidaria, da qual  temos uma boa relação com eles. É que como movimento de comércio justo não temos nos envolvido muito, temos relação, estamos em contato, nós fazemos parte a nível catalão da Xarxa de Economia Solidaria. Assim como no Brasil há uma relação muito direta entre comercio justo e economia solidaria, como uma parte importante, aqui não é assim, aqui estamos enfocando o comércio justo mais radical  com a questão da soberania alimentar e não temos trabalhado com a rede de economia solidaria e isso é uma debilidade clara. Por isso, consideramos que temos que impulsionar um movimento de comercio justo, junto com outros atores.

Esther Vivas5

"Comercializar através de circuitos curtos, ou criticar os mecanismos das grandes superfícies, estabelecendo um diferencial dos produtos que vendem, criando alternativas desde a produção, distribuição final e comercialização dos alimentos."

Qual a estratégia de ação do movimento de comércio justo?

Uma linha mais de criação de alternativas, portanto, de fortalecer esses espaços, que são os canais de distribuição dos alimentos, desde uma perspectiva de soberania alimentar e que isto seja real e, portanto, implica apoiar em nível local os pequenos produtores. Que estes possam produzir livres de transgênico, que possam comercializar através de circuitos curtos, ou criticar os mecanismos das grandes superfícies, estabelecendo um diferencial dos produtos que vendem, criando alternativas desde a produção, distribuição final e  comercialização dos alimentos.

Qual a relação do movimento com o Estado e sua  estratégia  frente aos governos?

Tendo em conta o papel do Estado, não temos uma visão autonomista. Senão uma visão que exige do Estado que se posicione e que apóie todas essas iniciativas. Portanto, mais além de criar estes espaços de resistência e soberania alimentar desde o local; comércio justo desde o local, também está colocado a necessidade que o Estado proíba os transgênicos, portanto, participamos ativamente dos movimentos anti-transgênicos no Estado Espanhol que é um movimento importante porque Espanha é um dos principais produtores de transgênicos na Europa, e instamos que o Estado apóie a pequena agricultura, e também cumprimos esse papel de pressionar os poderes públicos, pois estamos conscientes que se não somos muitos, e sozinhos pouca coisa vamos fazer para incidir no processo.  Também não temos uma prática de looby em relação ao Estado e as instituições, mas sim uma visão de mobilização social. Sabemos que nada adianta negociar com o governo se não somos muito nas ruas.

E qual tem sido a resposta/reação dos governos?

Como há movimento de comercio justo e soberania alimentar, o governo não pode ignorar o tema e por isso dá alguma subvenção, apoio simbólico, demonstração de interesses como o fato das administrações terem máquinas de café do comércio justo, entretanto,  além dessa série de ações simbólicas não há nenhuma vontade de mudanças em termos reais, porque as políticas acabam sendo marcadas pelos interesses corporativos, comerciais, da industria agro-alimentária, da industria transgênica, portanto, mais além de um interesse pontual e superficial destinado a contentar os setores  sociais que trabalham esses temas  não há uma vontade real de apoiar essas linhas de trabalho de comercio justo.

No Brasil o movimento da Economía Solidaria ainda é visto com certa desconfiança por parte dos partidos de esquerda,  com exceção do PT, os partidos mais radicais da esquerda brasileira não incorporaram essas questões em seus programas.  Como se dá essa relação do movimento do comércio justo com os partidos de esquerda na Espanha?

O problema por parte da esquerda no nosso caso é que a esquerda  anti-capitlista, radical, da qual fazemos parte aqui na Espanha  é  ainda muito frágil. Não se pode comparar, por exemplo, com o bloco de esquerda em Portugal ou o NPA (Novo Partido Anti-Capitalista) na França. Por outro lado, temos a esquerda governamental, que  são setores, que em ultima instância defendem o que chamamos de “capitalismo verde”, poderíamos dizer, e que buscam  instrumentalizar o que seriam as demandas dos movimentos sociais e não uma vontade real. Por parte do que é a esquerda política anti-capitalista sim, existe uma  participação ativa no movimento pela soberania alimentar, contra os transgênicos etc… mas, também, como havia salientado é, ainda uma esquerda política frágil mas em todo caso está vinculada a todos esses movimentos de base.

Essa relação da esquerda radical na Espanha parece ser um diferencial significativo em relação a esquerda brasileira, por exemplo. E como os militantes da esquerda anticapitalista da Espanha participam do movimento do comércio justo?

Nosso grupo aqui na Catalunha tem uma sede em Barcelona onde temos  uma cooperativa de  consumo  agroecológico. Porque nós temos uma perspectiva diríamos de ruptura anti-capitalista cotra esse sistema e as políticas neoliberais que nos querem vender como uma solução ao modelo atual. Por isso, em nossa perspectiva tem muita força outras questões como a ecológica, feminista. E para nós a perspectiva ecológica é central, e no contexto atual de crise sistêmica do capitalismo uma das questões centrais é a ecológica, que nos conduz a uma crise de civilização. Desde este ponto de vista, toda perspectiva de trabalho na agroecologia para nós é muito importante. De fato há muitas pessoas na Izquierda Anti-capitalista que fazem parte da “Plataforma Rural” que é um outro ator no Estado Espanhol, Plataforma Rural -PR é  um dos referenciais da Via Campesina no Estado Espanhol, assim como COA-Sindicato. E nós participamos de forma individual nesses espaços, assim como outros companheiros estão em cooperativas de consumo, portanto, trabalhamos muito estes temas. Com a lógica de trabalhar o tema do comércio justo e a soberania alimentar muito vinculado. Quanto ao tema da economia solidaria não temos elaborado muito, porque de fato seguimos o debate do próprio movimento, ou seja, não porque achamos que  a Economia Solidária  não seja importante, mas porque aqui o tema de soberania alimentar e comercio justo não estão vinculados a Economia Solidaria. Mas abordamos o tema da crise econômica desde uma perspectiva eco-socialista, de reorganizar o modelo de produção e consumo. Para nós, tudo o que seja esquerda anti-capitalista ou radical, na medida em que forma parte dos movimentos sociais, tem que incorporar os debates que se realizam nesses movimentos. E na medida em que os movimentos sociais apresentam uma série de debates a esquerda os assume e toma parte da elaboração dos mesmos.

Em quais espaços de organização dos movimentos sociais  os militantes da Izquierda Anticapitalista participam?

Como integrantes da rede de consumo solidário formamos parte do Fórum Social Catalão. Participamos ativamente no primeiro fórum e agora estamos organizando o segundo com outras organizações, formamos parte deste processo que se chama “Aliança pela Soberania Alimentar dos povos” que é um processo vinculado à Via Campesina e que propõe a criação de redes locais para construção da soberania alimentar, como cooperativas de consumo, produtores, ecologistas, comercio justo, para articular ações, identificar dificuldades. Também participamos da Plataforma contra os trangênicos, e participamos da Plataforma Rural que é uma plataforma que tenta vincular todos que trabalham com o tema da agroecologia, o mundo rural vivo, em um espaço vinculado também a Vía Campesina, e nessa plataforma integram redes de comercio justo, redes de economia solidaria, sindicatos de trabalhadores rurais, cristãos de base, ecologistas etc… A cada dois anos fazem um encontro presencial. Existe uma Junta diretiva da qual fazemos parte. É essa plataforma que está promovendo essas alianças, por isso,  mais além de nossas associações, cooperativas e redes, organizamos esses espaços. Em nível europeu participamos da Conferencia Européia da Via Campesina.

A Izquierda Anticapitalista – IA da Espanha foi criado ano passado, portanto, é um dos mais novos partidos da esquerda, como está sendo apresentado o programa do partido?

Este ano nos apresentamos pela primeira vez nas eleições européias. Porque mais que um partido político era uma pequena organização de ativistas. Quando decidimos nos apresentar em junho deste ano tivemos que elaborar o programa e quando o elaboramos foi junto com pessoas dos movimentos sociais. Criamos uma Wiki, um espaço colaborativo na internet e elaboramos o programa e colocamos na internet e as pessoas dos movimentos sociais podiam modificar o programa, também criamos grupos de debate que faziam contribuições nos diferentes temas como feminismo, ecologia, temas internacionais; criamos grupos de discussão e aqui na Catalunha criamos um grupo de discussão com pessoas de várias ONGs e movimentos sociais e elaboramos o programa sobre soberania alimentar.

Obrigad@.

*Conheça mais, visite os sites: www.anticapitalistas.org e www.revoltaglobal.cat

**Amanhã será publicada a segunda parte da entrevista com Esther Vivas.

PAULO MARQUES, 35 anos, é do coletivo Brasil Autogestionário, natural de Porto Alegre, pesquisador e militante da Economia Solidária. Atualmente realiza pesquisa de doutorado na Universidade de Granada/Espanha sobre a organização política dos trabalhadores da Economia Solidária: um estudo comparativo Brasil/Espanha. Mais informações em O Coletivo. Para ler mais posts de Paulo Marques clique AQUI ou em Paulo Marques na segunda coluna fixa a direita, em Categorias.

Se gostou acima, leia mais abaixo:

Comments on this entry are closed.

Previous post:

Next post: