Pois é gente, voltei de trem da minha visita à agroindústria na área rural de Sabojiú. As alternativas de horários dos trens estavam muito melhores do que as alternativas rodoviárias.
Como para mim um banco de carro, de ônibus, de trem ou de avião é praticamente um berço, somente durante alguns minutos, das oito horas de viagem noturna, consegui conversar com o Rui Fernando Farias Silva de Alencar (conhecido como RFFSA). Ele é o garçom do vagão restaurante e membro do Conselho Fiscal da Cooperativa de Transporte Ferroviário do Leste. Entre o atendimento de um passageiro e outro, pude conhecer melhor a lógica do transporte de passageiros e de cargas aqui em Sabojiú.
- Rui, vim de ônibus aqui para Baratas, mas, para voltar foi mais fácil de trem. Hoje havia mais opções de horário.
- Vieste na véspera do feriadão da semana passada?
- Sim.
- Então é por isso. A base do nosso transporte é ferroviária. Os ônibus são usados mais intensamente em momentos específicos. Sua função principal é a de absorver os picos de demanda de passageiros na época de férias ou datas comemorativas. Também é mais usado no transporte de cargas nos momentos das safras de alguns produtos agrícolas.
- É uma opção política?
- Política nada, econômica. Nosso povo não tem vocação para ficar sustentando as empresas transnacionais da indústria automobilística. O transporte ferroviário é muito mais barato. Temos que considerar o custo econômico e social porque no final quem paga a conta (a conta, nesse caso são as passagens e os produtos) é o povo.
- Como é mais barato se o preço da passagem do trem que estou pagando para voltar é praticamente igual ao do ônibus que paguei para vir. Vocês estão faturando mais do que os rodoviários, é?
- Não é isso. Há no país um caixa único que faz a compensação de todo o faturamento e despesas de transporte, resultando na definição do preço das tarifas de passageiros e de cargas.
- E como é que isto funciona? Me dá um café, por favor, e me explica.
- Açúcar ou adoçante?
- Açúcar.
- É o seguinte: São quatro as câmaras de compensação dos custos e tarifas de transporte: a de transporte urbano de passageiros (pequena distância), a de transporte intermunicipal de passageiros (média ou grande distância), a de transporte urbano de carga (pequena distância) e a de transporte intermunicipal de carga (média ou grande distância).
- Cumé que é?
- Duas abrangências: urbana e intermunicipal. Ambas com dois tipos: passageiros e cargas.
- Agora entendi.
- O funcionamento delas é praticamente igual. Simplificando, é o seguinte. Periodicamente uma equipe técnica da nossa Associação Corporativa (dos transportadores e transportadoras) atualiza o custo total do transporte de cada passageiro e de cada tonelada de carga. Agrega-se a este custo a remuneração do trabalho e divide-se pela quantidade de passageiros e por cada tonelada carregada, conforme o caso. Resultado: o preço das passagens e dos fretes.
- A equipe técnica define os preços?
- Óbvio que não. Anualmente, os estudos de custos e as propostas de tarifas são aprovadas pelos conselhos populares.
- E como as tarifas são semelhantes se os custos são diferentes?
- É que os cálculos são feitos juntando os custos ferroviários e rodoviários para cada abrangência. Então, as passagens e os fretes ferroviários e rodoviários ficam com preço semelhante. Os benefícios do menor custo do transporte ferroviário são usufruídos também pelos que necessitam usar o transporte rodoviário. As passagens urbanas, por exemplo, tem preço unitário para não prejudicar quem tem necessidade de deslocamentos maiores na sua atividade cotidiana.
- Mas, assim vocês não estão juntando alhos com bugalhos*?
- Não se você pensar o transporte como uma necessidade social e concessão do Estado às cooperativas ao invés de pensar como um bom negócio.
- É verdade. Bom, se nós tivermos oportunidade de nos encontrarmos novamente, gostaria de conhecer a relação do conselho fiscal da cooperativa com estes estudos periódicos de custo do transporte.
- Sem problema. Não tem segredo. Até porque o importante é a transparência mesmo, e porque na hora da avaliação final pelos conselhos populares é que a porca torce o rabo. Quem tem o rabo preso tem que ficar, de cabo a rabo da assembléia, com o rabo entre as pernas.
- Bom, vou dormir. Ótimo teu café. Tchau.
Viagem tranqüila. Acordei com o trem parado. Se o fiscal não me acorda, ia até a garagem.
Vamos aos falando.
Mudando de assunto. Já que aí no planalto central a “grande” imprensa está requentando as notícias de acusações sem prova, observamos os donos da comunicação tratar Manuel Zelaia, presidente de Honduras, de ditador por propor sua primeira reeleição enquanto o “democrático” Álvaro Uribe propõe seu terceiro mandato. Uribe é aquele presidente que oferece o território da Colômbia para ser um quintal dos Unaited Steits Ofamêurica (estão até instalando umas bases militares do Tio Sam). Cômico, se não fosse trágico.
E aí na Província de São Pedro? A decisão da juíza da 3ª Vara da Justiça Federal de Santa Maria (RS), Simone Fortes, no processo de improbidade administrativa contra Yeda+8, decide que “por hora” os indícios são insuficientes para justificar o bloqueio dos bens da governadora do Rio Grande do Sul. O despacho tem 171 páginas. Número significativo, né?
Abraços.
Elton Brum da Silva! Presente!
Sorte na Luta!
* Segundo o Tio Aurélio (tio do Chico), bugalho, na botânica, é um substantivo masculino que designa a galha arredondada ou coroada de tubérculos que se forma nos carvalhos. Descobri agora.
Leia mais:
22/08/2009 - “A produção de Biodiesel em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
15/08/2009 – “A doação de órgãos em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
08/08/2009 – “A propriedade intelectual em Sabojiú”
01/08/2009 – “A organização corporativa empresarial e do trabalho em Sabojiú.” Por Paulo Leboutte
25/07/2009 – “Notícias de Sabojiú(III)” Por Paulo Leboutte.
18/07/2009 – “Notícias de Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
11/07/09 – “Notícias de Sabojiú – a chegada” Por Paulo Leboutte.
04/07/2009 – Notícias de Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo.
PAULO LEBOUTTE é gaúcho de Canoas, sindicalista e com longa história no Sindipolo e na CUT Metropolitana de Porto Alegre. Em 1998 ajuda na implementação das políticas de Economia Solidária na gestão Olívio e Rosseto/PT. Em 2003 integra a equipe da ITCP no Rio de Janeiro, e em 2005 assume o projeto Etnodesenvolvimento Econômico Solidário das Comunidades Quilombolas da Secretaria Nacional de Economia Solidária. Exímio e observador viajante, Leboutte cultiva fortes laços com o Les Alternatifs Francês e atualmente encontra-se em Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo. De lá, Leboutte escreve ao Brasil Autogestionário contando como organiza-se social e economicamente o lugar onde a autogestão é a base da organização da sociedade. Acompanhe “Notícias de Sabojiú” Por Paulo Leboutte , aos sábados ou clicando AQUI.
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- Minha chegada a Coopercromos – Por Paulo Leboutte.
- “O Escritório de Registros” de Sabojiu – Por Paulo Leboutte.
- “A doação de órgãos em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “A produção artística em Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
- “O orçamento público em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “O Contrato Social de Comunicação de Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
- “O jubileu do Áureo em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “A propriedade intelectual em Sabojiú” Por Paulo Leboutte.
- “O sistema de saúde em Sabojiu” Por Paulo Leboutte.
- Agência do Trabalhador em Sabojiu – Por Paulo Leboutte



















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