Pois é gente, na terça passada fui à reunião que a Amélia – mulher de verdade – organizou para passar para outras cooperativas o controle das despesas e receitas da Cooperpão. Claro que estou falando das receitas financeiras e não das receitas dos deliciosos produtos que a Cooperativa vende. Não porque segredo industrial é fator de competitividade, até porque em Sabojiú todos os produtos alimentícios, incluindo os refrigerantes de cola, têm suas fórmulas e técnicas de preparo permanentemente à disposição da população. É Lei.
Curioso como em algumas situações nós não percebemos o óbvio ou valorizamos o simples. Quando a Amélia terminou sua apresentação, várias intervenções foram no sentido de realçar a importância política da aplicação do método enquanto outras intervenções sugeriram seu aperfeiçoamento. Aqui as pessoas têm a prática democrática bem desenvolvida e muito respeito a conhecimentos empíricos, principalmente os oriundos da prática do trabalho. Isto fez com que em menos de duas horas de reunião, representantes de algumas empresas haviam produzido, baseadas na experiência da Amélia na Cooperpão, uma técnica de controle financeiro muito simples e eficaz. Ao final da reunião foi encaminhado que esta técnica será sugerida para a Prefeitura avaliar a pertinência de sua utilização nas apresentações realizadas nas assembléias de definição do orçamento público.
Voltei para casa e encontrei o Ernesto na entrada do prédio conversando com um vizinho sobre sua filha.
- Conhece a minha filha, Julieta, né Ernesto?
- Sim. Aliás, ela anda um pouco sumida. Faz tempo que ao a vejo por aqui pelo prédio.
- Está morando com o Romeu.
- Conheço também. Ela me apresentou noutro dia. Eles já estão namorando há algum tempo, né?
- É. A novidade é que ela está grávida.
- E como ela está? Na última vez que nos encontramos conversamos sobre isso e ela comentou comigo que ainda pensavam em fazer outras coisas antes de ter filhos. Ela em concluir a faculdade, ele em esperar um pouco pela consolidação da cooperativa para ter mais estabilidade financeira… Essas coisas. O Romeu também comentou que queria esperar consolidar mais um pouco a relação, mesmo eles estando juntos já há algum tempo numa relação bastante tranqüila.
- Mas, na maioria das vezes, isto acontece assim mesmo. Minha vó dizia: “quem pensa não casa” e eu acrescentaria: nem tem filhos. Na balança racional das vantagens versus desvantagens em ter filhos, sempre ganham as segundas. Lembro até hoje quando engravidamos da Julieta. Minha cabeça balançava como um pêndulo louco entre a dificuldade de adaptação da minha vida à sua presença com a perspectiva de momentos de extrema felicidade pela convivência com ela.
- E como eles estão?
Pensando.
- Decidindo em manter ou interromper a gravidez?
- É.
- Quando souberes a decisão, me avisa. Não quero surpresa quando encontra-los.
- Certo.
Subimos.
Quando entramos no apartamento perguntei ao Ernesto:
- Manter ou interromper a gravidez. Simples assim?
- Sim. A definição tem conteúdo moral, a ação não. Definir interromper uma gravidez pode ser complicado por estar subordinado aos preceitos morais (religiosos ou não) de cada pessoa, mas, realizar é um ato técnico. É uma “intervenção cirúrgica”. É uma questão de saúde pública. Senta aí que já te explico melhor.
Ernesto foi até a cozinha, abriu uma cerveja e trouxe até a sala, com dois copos.
- Senta aí, Leboutte. Vou te mostrar como isto a coisa bem mais simples do que parece. Sabojiú é um Estado laico onde há liberdade religiosa. Isto quer dizer que os sabojieiros e sabojieiras podem praticar a religião que quiserem ou não praticar nenhuma. O governo não pode interferir nisto. É uma definição pessoal. Faz parte das liberdades individuais no nosso país. Da mesma forma, e até por isto mesmo, nenhuma religião pode interferir na relação que o Estado tenha com os cidadãos e cidadãs que professam outra religião ou religião nenhuma, através das leis ou funcionamento dos órgãos públicos. Entendeu? O governo não pode tratar diferentemente os cidadãos e as cidadãs que têm religião ou não.
- Certo. É por isto, então, que a rede pública de atendimento à saúde realiza a interrupção da gravidez de quem quiser?
- Sim, desde que a mulher tenha mais que 21 anos e declare sua intenção num cartório público, por escrito. A declaração fica arquivada no cartório. Se tiver menos de 21, é necessário que o pai, a mãe ou a pessoa responsável faça a declaração de intenção da mulher que deseja interromper a gravidez. Neste caso a declaração não é da vontade da pessoa responsável, mas da gestante. O tempo máximo de gestação eu não sei bem qual é. Só sei que o limite de tempo garante a intervenção com um mínimo de risco para a mulher.
- Eles decidem, então?
- Em geral a decisão é comum. A responsabilidade civil é que é da mulher. Pelo que conheço dos dois, Romeu e Julieta não vão se matar por causa disso. Vão tomar a melhor decisão para a vida deles.
- Se tu acreditas que vão, quem sou eu para duvidar.
Terminamos a cerveja que, diga-se de passagem, em Sabojiú é muito boa, comentando outros aspectos da rede pública de atendimento à saúde daqui.
Vamos nos falando.
E a final da Libertadores, hein? Assisti pela internet. Que pena dos mineiros e das mineiras. Pela derrota do Cruzeiro e porque o jogo deve ter deixado Belo Horizonte infestada de gripe suína. Afinal, estavam no Mineirão mais de 3.000 argentinos e argentinas. Ainda bem que a Juíza Eloísa HHH, sob orientação da Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, livrou a cidade de Santa Maria deste mal quando suspendeu a nossa 16ª Feira de Economia Solidária.
Abraços.
Sorte na Luta!
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04/07/2009 – Notícias de Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo.
“Notícias de Sabojiú – a chegada” Por Paulo Leboutte.
PAULO LEBOUTTE é gaúcho de Canoas, sindicalista e com longa história no Sindipolo e na CUT Metropolitana de Porto Alegre. Em 1998 ajuda na implementação das políticas de Economia Solidária na gestão Olívio e Rosseto/PT. Em 2003 integra a equipe da ITCP no Rio de Janeiro, e em 2005 assume o projeto Etnodesenvolvimento Econômico Solidário das Comunidades Quilombolas da Secretaria Nacional de Economia Solidária. Exímio e observador viajante, Leboutte cultiva fortes laços com o Les Alternatifs Francês e atualmente encontra-se em Sabojiú – o lugar mais avançado em autogestão que existe no mundo. De lá, Leboutte escreve ao Brasil Autogestionário contando como organiza-se social e economicamente o lugar onde a autogestão é a base da organização da sociedade. Acompanhe “Notícias de Sabojiú” Por Paulo Leboutte , aos sábados ou clicando AQUI.
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