“Existiriam contradições na parceira entre a Sociedade Civil organizada e o grande capital?” Por Lucio Uberdan

by luciouberdan on 18/06/2009

in Capitalismo,Lucio Uberdan

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Imagem: Wal Mart e seu trabalho criativo.

Há um bom tempo as relações entre as entidades da sociedade civil e o grande capital me causam estranheza. Um tempo atrás em uma entidade que conheço, de certa forma se colocou o debate de pensarmos atividades da Inclusão Digital financiadas com recursos da BrasilTelecom, recordo na época ao ser consultado, que fui contra, ainda que o debate não tenha sido amplo, e a parceira nunca tenha sido levada adiante, ficou a estranheza presente.

Penso que se acreditamos na Autogestão e na Economia Solidária, não como uma compensação aos marginalizados pela essência do Capitalismo, mas sim, que a Autogestão pode ser o embrião de uma outra forma de organizar o trabalho e a economia de forma permanente e em larga escala, com base anti-capitalista, guardaria-se portanto grande contradição o estabelecimento de relações de conveniamento entre o grande Capital e as entidades da sociedade civil que pretensamente o “combatem”. Não?

Sendo mais específico e pontual ainda por outro ângulo. Poucos dias atrás o Ministério Público Federal(MPF) autuou várias agropecuárias e frigoríficos no Pará, aplicou-lhes uma multa de mais de R$ 2 bilhões por exercerem suas atividades econômicas praticando crime ambiental (desmatando a Amazônia), comentamos AQUI no Brasil Autogestionário. Na ação, além da multa, o MPF divulgou o nome das Agropecuárias e dos Frigoríficos autuados, divulgou também uma lista de grandes empresas que compram das agropecuárias e frigoríficos citados, como a Avipal Nordeste (Perdigão), Carrefour, Grupo Pão de Açucar, Sadia, Wal Mart(Hipermercados BIG).

O procurador Daniel Avelino, responsável pela ação, disse que as fazendas terão de reparar o dano ambiental, e seus compradores nomeados na lista, entre eles a Wal Mart(Hipermercados BIG) por exemplo “vão ter que parar de comprar de infratores ambientais. Senão serão responsabilizadas pelos danos que venham a ocorrer. E vão ter que informar no produto a origem dele para que o consumidor possa ter a opção de escolher, se ele quer ou não adquirir aquele produto conveniente de desmatamento na Amazônia.”

Seguindo o raciocínio do procurador, se para o Ministério Público Federal(MPF), a Wal Mart por exemplo necessita avaliar com quem estabelece suas relações econômicas, ou igualmente poderá ela ser responsabilizada, visto que seu vínculo econômico sustenta uma prática danosa ao ambiente, me pergunto:

– As entidades da sociedade civil quando em algum grau usufruem(ainda que com outro propósito) do lucro obtido desse comércio, não estariam de alguma forma, em última instância, sendo corresponsáveis igualmente?

Acredito que a correlação seja bem mais complexa do que a apresentada, bem como passível de um bom debate, ainda assim, tenho certeza da importância de se atentar para essas questões quando nos propomos pretensamente a construir outras relações de ação e percepção de mundo.

LUCIO UBERDAN, 35 anos, é do Coletivo Brasil Autogestionário, natural de Pelotas,  ativista da Economia Solidária, coordenou o departamento municipal de Ecosol da Prefeitura de Pelotas em 2001/2002; foi fundador/diretor da Associação do Trabalho e Economia Solidária até 2007; compõem a executiva do Fórum Gaúcho de Economia Popular e Solidária – FGEPS e coordena a Setorial Estadual de Economia Solidária do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul. Mais informações em O Coletivo. Para ler mais posts de Lucio Uberdan clique AQUI ou em Lucio Uberdan na segunda coluna fixa a direita, em Coletivo Brasil Autogestionário.

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