
No último dia 27 de março, foi lançado em Porto Alegre o Dicionário Internacional da Outra Economia (sumário do livro). São 58 verbetes, organizados por quatro dos principais pensadores da Economia Solidária mundial, Antonio David Cattani, Jean-louis Laville, Luiz Inácio Gaiger, Pedro Hespanha, e mais de 50 autores(as) de 3 diferentes continentes. Sobre o dicionário, Antonio Cattani afirma que “A construção desta obra está sintonizada com os ideais e as realizações objetivas da outra economia, aquela que se apresenta como alternativa material e humana superior à economia capitalista.”
No dia 26 de fevereiro registramos aqui no blogue o lançamento do dicionário em Portugal, e no dia 24 de março divulgamos o convite de lançamento do livro em Porto Alegre/RS, logo em seguida, comentamos nossa passagem na Palavraria quando fomos prestigiar o lançamento e a sessão de autógrafos, nesse post em especial, divulgamos que em breve publicaríamos algumas entrevistas com os organizadores do Dicionário.
Hoje temos a imensa satisfação de publicar a primeira dessas entrevistas, isso só foi possível por um esforço dedicado e militante dos(as) colaboradores(as) do blogue, em manter diariamente esse espaço vivo e dinâmico de comunicação e informação do tema da Economia Solidária, bem como, pela disposição sem precedentes do professor Antonio Cattani em receber nossas perguntas.
Boa leitura a todos(as).
Antonio David Cattani é Doutor pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne, com pós-doutoramento na colede Hautes tudes en Sciences Sociales. Professor Titular de Sociologia (Depto. de Sociologia e Programa de Pós-Graduação em Sociologia) da UFRGS (Porto Alegre, Brasil). Pesquisador do CNPq. Autor e organizador (com Lorena Holzmann) do Dicionário de Trabalho e Tecnologia (Prémio Açoria-nos 2007). www.antoniodavidcattani.net.
ENTREVISTA:
(Economia Solidária RS*) Em 2003 foi lançado A Outra Economia, obra que deu origem a obras similares publicadas na Argentina, França e Itália. Agora, é lançado o Dicionário Internacional da Outra Economia (Coimbra, Almedina, 2009), ampliando para a participação de pesquisadores de fora do Brasil, isso significa que o tema da Economia Solidária vêm crescendo como objeto de pesquisas? Qual a importância do Dicionário para a Economia Solidária, além dos meios acadêmicos?
(Antonio Cattani) Com ênfase nas dimensões teóricas e conceituais, o Dicionário se constitui na mais atual e completa obra sobre o tema das alternativas em construção. São mais de 50 autores de três continentes que apresentam análises claras e precisas sobre as múltiplas formas da economia solidária. Ele é dirigido a um público composto por pesquisadores acadêmicos ou não, por pessoas que buscam conhecimento atualizado sobre o tema e, também, por pessoas envolvidas com experiências concretas e que querem comparar seu entendimento prático com outras formulações.
(Economia Solidária RS) Em sua opinião o que mudou de 2003, quando da publicação da Outra Economia e a realidade de hoje para a Economia Solidária?
(Antonio Cattani) O primeiro fato a destacar foi o aumento quantitativo dos empreendimentos. Os dados recentes apontam para uma multiplicação ininterrupta de novas iniciativas e, o que é muito importante, sua estabilidade que traduz sucesso. Estimativas do SEBRAE indicam que apenas 20% das empresas capitalistas permanecem no mercado após o 5º ano da criação. No que diz respeito aos empreendimentos solidários este percentual é exatamente o inverso. Em cinco anos, 80% ainda estão funcionando e expandindo suas atividades.
O segundo fato diz respeito à credibilidade também crescente da Economia Solidária. Se no final dos anos 1990 ela era ignorada ou considerada como algo insignificante ou folclórico, destinada a ser varrida do mercado pelas empresas capitalistas, hoje em dia ela está consolidada como algo viável, social e economicamente mais avançado que as empresas capitalistas.
Por fim, cabe salientar que as turbulências econômicas internacionais provocadas pelas grandes empresas acabam reforçando a legitimidade da Economia Solidária. Enquanto as primeiras são responsáveis pelos desequilíbrios crescentes, por acelerar a devastação dos recursos naturais, pelo aumento da poluição e pela concentração da renda, os empreendimentos solidários se caracterizam justamente por ações que asseguram estabilidade no mercado, valorização dos recursos locais, geração de emprego e renda que beneficiam os mais necessitados.
(Economia Solidária RS) Tem sido um consenso entre diferentes analistas a opinião de que a atual crise do capitalismo é a mais profunda que o sistema já enfrentou, sendo inclusive pior que a de 1929. Qual sua opinião sobre essa crise? É possível identificar a essência e o significado da crise para atual estágio do capitalismo?
(Antonio Cattani) Ainda é cedo para fazer uma avaliação comparativa. Embora gravíssima, a crise atual está sendo contra-atacada com recursos e políticas que inexistiam na década de 1930. A capacidade de recuperação do sistema é surpreendente e estamos longe de um “crise terminal”. Ao mesmo tempo, a crise revelou inúmeros fenômenos que são intrínsecos ao capitalismo, mas, que foram ampliados devido à ausência de controles e pela correlação de forças desfavorável aos movimentos sociais. Podemos destacar alguns aspectos abordados superficialmente pela grande mídia. Primeiro: a responsabilidade pelo desastre não está concentrada em alguns poucos personagens ou empresas. Indicar como culpados alguns bodes expiatórios (executivos da AIG, da GM ou personalidades isoladas como o Alan Greespan ou Bernard Madoff), serve para desviar a atenção da responsabilidade compartilhada. Desde os anos 1970, professores universitários, publicitários, jornalistas econômicos, políticos, empresários, governantes, enfim, todos os que tiveram capacidade de influenciar a marcha da economia em direção ao abismo, podem ser listados como “criminosos econômicos”.
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É importante destacar também, que de um lado, o crescimento acelerado da economia nos moldes neoliberais ampliou de forma gigantesca os desequilíbrios que caracterizam a dinâmica capitalista. Em pouco mais de duas décadas, 1% da população mais rica conseguiu ampliar seus rendimentos e patrimônio em volumes jamais vistos na história recente contando com o beneplácito dos formadores de opinião, pelos analistas econômicos e pelos gestores públicos. A extorsão sobre os mais pobres era interpretada como “capacidade e talento empresariais”.
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De outro, graças à concessão indiscriminada de crédito, parte da população dos países economicamente avançados teve acesso a bens de consumo e ao mercado imobiliário. O consumismo desenfreado esteve baseado no endividamento pessoal que, agora, deverá ser pago com recursos públicos. A classe média norte-americana notadamente, estava saqueando o futuro e os povos do Terceiro Mundo são chamados para pagar a conta. O fenômeno estava sendo reproduzido em países como o Brasil. Basta lembrar a publicidade dos cartões de crédito. As maravilhas do mundo e os produtos mais desejados eram mostrados de maneira glamourizada seguido de frases de efeito tais como “Você quer? Você pode” graças ao Mastercard ou ao Visa. Os cartões de crédito eram apresentados como espécies de varinhas mágicas que permitiam comprar tudo sem precisar pagar. A compra pelo sistema de crediário ou com parcelamentos no cartão de crédito embute juros altíssimos causando o empobrecimento de muitos em benefício de poucos.
Algo parecido estava ocorrendo com títulos da dívida pública. Os governos também estavam (e continuam) saqueando os futuro. A velha (e nefasta) política de emissão de moeda foi abandonada. No seu lugar, governos emitiram títulos remunerando-os a juros acima dos níveis praticados no mercado. Segundo Reinaldo Guimarães na obra “A herança e a ruptura” (Garamond, 2004), 70% dos títulos públicos federais pertencem a menos de 1% da população. Como o orçamento da União destina bilhões de reais cada ano para o pagamento da dívida, pode-se constatar facilmente como isso se traduz no enriquecimento acelerado de uma minoria de magnatas das finanças.
Por outros mecanismos, o processo de financeirização da economia se estende pelo mundo inteiro com os mesmos resultados: concentração de renda, empobrecimento da população, subordinação do setor produtivo e dependência dos estados nacionais aos grandes bancos. E mesmo com todo esse poderio o setor financeiro está a beira de um colapso necessitando ser recapitalizado com mais recursos públicos.
(Economia Solidária RS) Os governos dos países capitalistas centrais, EUA e Europa, abandonaram as políticas neoliberais e retomam a intervenção do Estado na economia como forma de salvar o sistema, principalmente a partir de bilhões em ajuda aos bancos privados. Qual o significado dessas políticas para os trabalhadores(as)? Qual o impacto social da solução da crise? Existiria outra saída que não fosse o socorro ao sistema financeiro, como está sendo feito?
(Antonio Cattani) Este é outro aspecto raramente abordado nas análises sobre a crise.
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Efetivamente, está havendo uma intervenção de estilo keynesiano para impedir que o sistema entre em colapso. Porém, a exceção de algumas medidas de cunho moralizador (como por exemplo, a limitação dos salários dos executivos), absolutamente nada foi feito para reverter a concentração de renda e as dimensões mais nefastas do modelo industrial. O caso extremo é a indústria automobilística, responsável maior pela poluição e pelo caos urbano. Em vez de investir os mesmos bilhões em fontes de energia não poluentes, em transporte público, em vias alternativas, os governos esterilizam bilhões para sustentar um modelo ultrapassado, que não gera empregos. Isso está ocorrendo em Detroit e também em Gravataí.
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Mas, o mais grave é que as centenas de bilhões de dólares investidos no mesmo modelo que já comprovou sua negatividade social e ambiental traduzem uma outra modalidade de “saque sobre o futuro”. Os recursos públicos não estavam ociosos, guardados em cofres-fortes. Parte são recursos destinados ao funcionamento regular do Estado e parte é uma antecipação de ingressos que estariam disponíveis nos próximos anos. O dinheiro esterilizado para salvar empresas insolventes e para remunerar empresários incompetentes será obtido com a emissão de moeda (que gerará inflação) e com o não-pagamento de obras públicas. Se nada for feito para reverter esse quadro, nos próximos não haverá recursos para, por exemplo, o pagamento das aposentadorias e pensões, para investimentos em infra-estrutura e obras de cunho social.
*As perguntas foram elaboradas pelos colaboradores Paulo Marques e Lucio Uberdan, e a colaborada Analine Specht.
Se gostou acima, leia mais abaixo:
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