Um blog sobre autogestão e revolução.

Brasil Autogestionário


“O #FST2012 e os movimentos sociais: Dilemas e perspectivas” Por Paulo Marques 0

Posted on February 07, 2012 by admin

Mais um Fórum Social Mundial chegou ao fim, e a pergunta é sempre a mesma: E daí? O que muda ou mudará no processo politico concreto dos movimentos sociais e da política real? A depender do interlocutor teremos respostas muito diversas a esta pergunta. Teremos aqueles que dirão que o fórum é nada mais que um evento, uma feira ideológica onde as diversas esquerdas “vendem o seu peixe” ou melhor, as suas “receitas” para um outro mundo possível. Outros dirão que a iniciativa é importante mas que a realidade é bem mais complexa que palavras de ordem e boas intenções, outros ainda mais céticos dirão que é um espaço de debate importante mas que não tem força para intervir nas esferas reais de decisão, dada a fragilidade dos movimentos em comparação com as grandes corporações internacionais, estas as verdadeiras donas do mundo.

Por Paulo Marques.

Essa diversidade ou pluralidade de visões no contexto dos próprios movimentos sociais, partidos de esquerda e também governos progressistas da América Latina compõe hoje a realidade mais visível no campo dos movimentos sociais. Não é possível falarmos de um tipo de movimento, há uma diversidade de movimentos, desde os tradicionais sindicatos, partidos de esquerda passando por fóruns, redes de movimentos, ambientalistas, feministas, povos indígenas, quilombolas, movimentos urbanos de luta pela moradia, direitos humanos, movimentos campesinos, e os novissimos “movimentos 2.0″, hakers, “indignados” , “ocupas” etc… Uma diversidade que também cobra seu preço, a dispersão de cada pauta/demanda específica e a incapacidade de uma visão totalizadora dos processos capaz de construir agendas comuns com pontos minimos unificadores e estratégicos para acumular força política.

O reflexo desta dispersão pode ser visto neste Fórum Temático. Mais de 400 atividades autogestionárias dos mais variados temas. Após quatro dias de debates o Fórum Social Temático foi concluido com a Plénária dos Movimentos Sociais, realizado na Usina do Gasômetro no sábado 28/01. O resultado foi a aprovação da Declaração da Assembléia dos Movimentos Sociais” cujo conteúdo procurou apontar o que é consenso ou seja, a denuncia das mazelas do sistema capitalista, e um chamamento para realização da Cúpula dos povos, no mes de junho no Rio de Janeiro. Quanto a táticas e estratégias, cada movimento é responsável pela sua.

Mesmo que não estivesse na pauta dos movimentos, foi possível observar que houve um esforço da coordenação do FST para resgatar o FSM como pólo de referência dos movimentos sociais globais, principalmente após o seu enfraquecimento ao longo de dez anos de existencia. Foi nesse sentido que no folder de apresentação das atividades oficiais do Fórum, denominadas de ” Narrativas e Diálogos” e “Grupos Temáticos” , afirmava-se que ” Este parece ser um momento único para resgatarmos o acúmulo do altermundialismo e do Fórum Social Mundial”. O FST 2012 foi, portanto, uma tentativa de “reencontro” do FSM com os novos movimentos sociais que emergiram em 2011 como os “indignados” , ocupas e estudantes chilenos.

Junto a essa predominancia dos novos movimentos sociais antisistêmicos estavam os ambientalistas e ativistas das novas tecnologias e redes sociais, como ativistas hakers, militantes da cultura livre, que tiveram no “Conexões Globais 2.0″ , realizado na Casa de Cultura Mário Quintana o seu espaço privilegiado para suas temáticas.

O Brasil no FST 2012

Com este cenário foi possível perceber também o aprofundamento de outro dilema que acompanha o fórum desde sua criação que é a relação dos movimentos sociais com os governos progressistas da América Latina. O caso do Brasil é ainda mais complexo dado que o PT foi um dos principais protagonistas da criação do FSM e mantém ainda uma grande hegemonia nos movimentos sociais do país, mas enfrenta enormes contradições das políticas de caráter desenvolvimentistas do seu governo com a agenda ambientalista e mais recentemente com os movimentos da cultura livre, a partir do retrocesso da politicas do ministério da cultura.

O fato é que se o FSM quando do seu nascimento, constituiu-se como o espaço de confluencia e unidade dos movimentos sociais na luta contra o neoliberalismo hoje temos uma realidade diferente, particularmente na América Latina, onde a agenda neo-desenvolvimentista dos governos progressistas tornou mais complexa essa unidade, principalmente a relação aos movimentos ambientalistas e anticapitalistas.

A realidade que temos é o fato de que na agenda desenvolvimentista hegemônica hoje no Brasil não cabem a crítica antisistêmica, ou “para além do capital”, por isso a grande dificuldade de diálogo hoje que o PT tem com movimentos sociais de caráter anticapitalista. A agenda do governo tem limites muito concretos e estes limites estão encerrados na lógica da reprodução do capital. O argumento do desenvolvimento capitalista como única forma de superação da miséria interdita qualquer debate que busque alternativa ao novo “pensamento único” vigente.

Por outro lado, no campo dos movimentos sociais as dificuldades e dilemas não são menores. Como organizar movimentos sociais anti-sistêmicos em um contexto desse “pensamento único” desenvolvimentista, no qual o capitalismo não está em questão? Como fortalecer as experiências práticas de organização e produção não-capitalista que sejam mais que pequenas ilhas sem capacidade de consolidação como alternativa? Como articular estratégias comuns de luta anticapitalista com os diferentes movimentos sociais e suas pautas específicas, superando o setorialismo e o corporativismo de cada movimento? Qual a estratégia, de unidade mínima dos movimentos, para enfrentar a força do capital ainda vigente?

Como bem falou Esther Vivas em seu artigo “como mudar o mundo”? não temos a resposta mas temos algumas pistas que podem nos orientar no caminho como a premissa de que “ ninguém tem verdades absolutas, de que o processo de mudanças será coletivo ou não será, de que há que aprender uns com os outros, de que é necessário trabalhar sem sectarismos nem seguidismos e que frequentemente os rótulos separam mais que unem”

Portanto, o desafio central não é mais discutir qual o papel do Fórum Social Mundial ou qualquer outra forma de articulação dos movimentos, mas sim quais as novas práticas políticas no campo da esquerda anti-capitalista e movimentos sociais anti-sistêmicos que podem contribuir para acumular forças e permita superar os atuais dilemas da dispersão e fragmentação em que e se encontram as ações coletivas, muitas das quais perdidas no beco sem saída do “não há alternativa” do neo-desenvolvimentismo.

Karl Marx, IPADs e a Sra. Chen 0

Posted on February 07, 2012 by luciouberdan

Em recente matéria, a CNN mostra o caso da Sra. Chen, trabalhadora da Foxconn, empresa que monta o IPAD, que nunca tinha visto uma tablet completa. Essa matéria me lembrou um “velho” texto de Karl Marx, aquele que os ciber-pós-modernos dizem estar superado, mesmo sem colocarem nada decente no lugar.

Funcionárias da Foxconn. Reprodução: Mashable

No texto Manuscritos econômicos Filosóficos, 1º manuscrito, Trabalho Alienado, Marx comenta:

 

“…o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do produtor. O produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e convertido em coisa física; esse produto é umaobjetificação do trabalho. A execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação. A execução do trabalho aparece na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, a objetificação como uma perda e uma servidão ante o objeto, e a apropriação como alienação.

A execução do trabalho aparece tanto como uma perversão que o trabalhador se perverte até o ponto de passar fome. A objetificação aparece tanto como uma perda do objeto que o trabalhador é despojado das coisas mais essenciais não só da vida, mas também do trabalho. O próprio trabalho transforma-se em um objeto que ele só pode adquirir com tremendo esforço e com interrupções imprevisíveis. A apropriação do objeto aparece como alienação a tal ponto que quanto mais objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado pelo seu produto, o capital.

Todas essas conseqüências decorrem do fato de o trabalhador ser relacionado com o produto de seu trabalho como com um objeto estranho. Pois está claro que, baseado nesta premissa, quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho tanto mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele se pertence a si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe resta. O trabalhador põe a sua vida no objeto, e sua vida, então, não mais lhe pertence, porém, ao objeto. Quanto maior for sua atividade, portanto, tanto menos ele possuirá. O que está incorporado ao produto de seu trabalho não mais é dele mesmo. Quanto maior for o produto de seu trabalho, por conseguinte, tanto mais ele minguará. A alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência externa, mas ainda que existe independentemente, fora dele mesmo, e a ele estranho, e que com ele se defronta como uma força autônoma. A vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil.”

Veja então a matéria da CNN (via Gizmodo):

Funcionária da Foxconn que monta iPads mexe no tablet pela primeira vez em sua vida

 

Equipe da CNN com a Sra. Chen

A “senhora Chen”, como a CNN a chama, trabalha na Foxconn instalando telas de iPad em praticamente todas as horas de sua vida em que ela fica acordada. Além desse ritmo, ela nunca tinha visto um iPad de verdade até a CNN mostrar um para ela. A reação da senhora Chen é surpreendente.

A matéria investigativa, que segue a onda do completo artigo do New York Times sobre os detalhes da Foxconn, mostra aquilo que já sabíamos: muitos funcionários da Foxconn reclamam das condições inumanas enquanto constroem diversos de nossos gadgets:

Durante meio primeiro dia de trabalho, um funcionário mais antigo me disse: “por que você veio para a Foxconn? Não cogite mais isso novamente e vá embora agora mesmo”… Os funcionários da Foxconn tem um teoria: eles usam homens e mulheres como máquinas… Há outra forma de dizer isso: ‘eles usam mulheres como homens, e homens como animais’.”

Mas quando a senhora Chen pega um iPad na mão — um objeto que para ela é como um extraterrestre, apesar de ela olhar para ele todos os dias — ela adora a tábua que consome todos os dias de sua vida. “Eu gostei”, ela diz, dizendo ainda que gostaria de ter um algum dia, se ela tivesse dinheiro para isso. [CNN via 9to5Mac]

Convencido, não?

Leia o texto Manuscritos econômicos Filosóficos de Marx, 1º manuscrito, Trabalho Alienado AQUI. Veja a “desatualização”.

“Lições de janeiro: uma reflexão sobre os rumos do Fórum Social Mundial” Por @tarsogenro 0

Posted on February 06, 2012 by luciouberdan

O Fórum Social Mundial Temático, que transcorreu em Porto Alegre entre os dias 24 e 29 de janeiro deste ano, como sempre suscitou muitas controvérsias entre as distintas forças políticas e representações da sociedade civil, que participaram daquele evento. Ou que não participaram, mas observaram-no com maior ou menor dose de boa vontade.

Por Tarso Genro - Governador do Estado do Rio Grande do Sul – Via RS Urgente

Tarso Genro - Governador do Estado do Rio Grande do Sul

Foi uma “feira ideológica”? Uma “internacional perfomática” dos fragmentos? Uma presença anárquica da “velha” ou “nova esquerda” meio pasmada, ainda, com as grandes mudanças globais tuteladas pelo capital financeiro em crise? Uma expressão inorgânica dos “novos” ou “velhos” movimentos sociais? Uma exibição de novas culturas políticas em formação? Creio que foi tudo isso e mais um pouco. E foi bom. Um grande festival de opiniões sobre os mais variados temas, com algumas receitas de praxe, certo nível de inventividade, muita confusão ideológica e críticas ferozes à “política estabelecida”. Nenhuma surpresa.

Seria possível outra coisa? Creio que não. Os receituários tradicionais da esquerda organizada ainda gravitam, em regra, entre o esquerdismo, que se abriga na radicalização superficial das categorias do serviço público e dos movimentos sociais, avessos, em regra, ao mundo “corrompido” da política parlamentar -como se a esfera da política estivesse fora da reprodução dos costumes e da cultura da própria sociedade civil-, de um lado, e a proposta de “doses”, maiores ou menores, de liberalismo econômico, de outro, sem a inventividade transformadora que caracterizou as distintas formações de esquerda em outras épocas. Nas lutas contra os regimes ditatoriais ou autoritários (europeus e latino-americanos), entre os anos 50 e 70 o debate teórico e doutrinário sobre democracia e revolução estava sempre presente, o que exigia mais inteligência e esforço do que simplesmente dizer que os governos são maus porque não atendem as demandas dos movimentos. Read the rest of this entry →

O #ConexoesGlobais 2.0 irá premiar as melhores coberturas colaborativas do #FST2012 0

Posted on February 04, 2012 by luciouberdan

O Conexões Globais 2.0 irá premiar as melhores coberturas colaborativas do Fórum Social Temático 2012 em três categorias: 1) melhor cobertura fotográfica; 2) melhor vídeo e 3) melhor cobertura em blogs e sites. Para participar é necessário inscrever-se no site do evento (conexoesglobais.com.br/concurso) até o dia 5 de fevereiro.

De acordo com organizadores do concurso, a ideia é estimular uma cobertura plural e democrática das atividades do FST 2012. O que se busca é divulgar textos, imagens e trabalhos em audiovisual que representem o olhar dos participantes desse grande encontro.

A premiação reflete um dos objetivos do Conexões Globais 2.0, que é justamente estimular ativistas sociais a se apropriarem de elementos tecnológicos que favoreçam suas plataformas de lutas na web e nas ruas.  Todos os vencedores receberão equipamentos digitais. Read the rest of this entry →

Íntegra: Nota do Gov @TarsoGenro sobre texto “Quem te viu, quem te vê”, publicado na Zero Hora 0

Posted on February 01, 2012 by Everton Rodrigues

Nota do Governador Tarso Genro

Governador Tarso Genro

No editorial “Quem te viu, quem te vê”, publicado na página 10 de Zero Hora, desta quarta-feira (1º), é mencionada diretamente a postura do Governo gaúcho em relação à Comissão, criada pelo próprio Executivo, que investigou irregularidades no DAER. O Governo do Estado manifesta sua inconformidade com as acusações de encobrimento de nomes e esclarece:

1) O próprio Governo do Estado, por meio da Procuradoria Geral do Estado, é quem fez a investigação, por determinação direta do Governador;

2) O Governo não é contrário à divulgação dos nomes das pessoas eventualmente implicadas, mas entende que o órgão apropriado para fazer esta divulgação é o Ministério Público, que tem a responsabilidade da Ação Penal e o dever de aferir os resultados da investigação;

3) No texto estão misturadas as posições do PT com posições do Governo do Estado, como se outorgar ao MP a decisão de divulgar os nomes, fosse uma posição contrária do Governo contrária ao resultado da investigação;

4) O seu texto nega ao Estado um dever ético que é determinado pelo próprio Guia de Ética da RBS, que é uma instituição privada, e que está assim redigido: “O mero registro policial ou a proposta de ação judicial não são elementos suficientes para a divulgação de nomes de suspeitos ou acusados, a menos que haja a devida contextualização para se compreender um fato de interesse público”.

5) É, no mínimo, curiosa a comparação com a Comissão de Sindicância que apontou as responsabilidades do Detran à época e a Comissão Processante que agora encerrou os seus trabalhos. Ocorre que a situação é diametralmente oposta. Os apontamentos da PGE, em 2008, e a “divulgação dos nomes” se deram sete meses após a deflagração da chamada Operação Rodin, quatro meses após a conclusão de inquérito por parte da Polícia Federal e em pleno curso de uma CPI que tratou sobre o tema. Os nomes dos supostos envolvidos já estavam amplamente publicizados, com o aval do Ministério Público Federal. No caso atual, o Governo atuou na vanguarda das investigações, propiciando o ambiente institucional adequado para a realização do trabalho da Comissão Processante, bem diferente do que ocorreu em períodos anteriores;

6) Na verdade, as acusações ao Governo, no editorial referido, partem do pressuposto que uma instituição privada tem o direito de não informar, quando entende que este é o seu dever ético, e que o Estado não deve obedecer aos mesmos pressupostos.

7) Finalmente, o Governo do Estado não fará nenhuma objeção caso o Ministério Público decida divulgar os nomes. Pelo contrário, se a instituição verificar que há fundamento na investigação conduzida pelo Executivo, saudaremos a publicização de tudo o que foi apurado, inclusive os nomes;

Ecossocialismo ou barbárie: a armadilha do capitalismo verde ou uma saída para além do capital. 1

Posted on January 27, 2012 by luciouberdan

O pequeno auditório da Faculdade de Engenharia da UFRGS estava lotado para assistir a atividade organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, durante toda a manhã deste segundo dia do Fórum Social Temático.

O tema da atividade  não poderia deixar de ser dos mais instigantes para o debate ” Ecossocialismo ou barbárie : armadilha do capitalismo verde ou uma saída para além do capital”.

 Na mesa de debates estavam  o canadense Pat Mooney considerado como uma autoridade em questões de biodiversidade agrícola e novas tecnologias., trabalha a  mais de 30 anos com organizações da sociedade civil sobre o comércio internacional e questões de desenvolvimento relacionados com aagricultura,e biodiversidade e novas tecnologias. Autor ou co-autor de vários livros sobre a política de biotecnologia e biodiversidade, Pat Mooney recebeu o “Nobel Alternativo” do Parlamento sueco em 1985; ChristopherAguiton da ATTAC França, autor do livro “O mundo nos pertence” e Esther Vivas da Izquierda Anticapitalista de Barcelona, ativista anti-globalização e autora e co-autora de vários livros sobre movimentos sociais, comércio justo

O primeiro painelista o canadense Pat Mooney, que ao se referir a ECO92 disse que aquela cúpula “foi o maior roubo da história” , ele se referia ao  acordo firmado entre governos de países do sul e do norte no qual permitem que toda biodiversidade da América Latina, levada pelos europeus nos últimos 500 anos, pertenceria aos países do norte. Mooney também criticou a ideia de economia verde, levada a cabo pela maioria da organizações que integram a Rio+20. Para ele, “economia verde se trata do controle econômico da natureza”.

Ele ainda afirma que no acordo que vai ser tirado na Rio+20, as empresas vão tomar conta de parte da biodiversidade que agora pode se tornar mercadoria. Mooney explica que o valor comercial do material biológico extraído da natureza atualmente pode ser feita com a biotecnologia. Esse desenvolvimento tecnológico garante, por exemplo, a transformação de celulose tirada das árvores em bioeletricidade, bionergia, plástico e até mesmo comida. Read the rest of this entry →

“Ecos do Fórum Social Mundial em Porto Alegre” Por Esther Vivas 0

Posted on January 27, 2012 by luciouberdan

A última edição do Fórum Social Mundial (FSM), celebrado em Dakar  (Senegal) em janeiro de 2011, começava coincidindo com a marcha forçada de Ben Alí em Túnez e concluía quando no Egito Mubarak era obrigado a abandonar o poder com millhares de  pessoas tomando as ruas. A Primavera árabe era tão só o início de uma inesperada
maré indignada que sacudiu com força o  planeta.

Agora, um ano depois, os ecos do Fórum Social Mundial voltam serem escutados  de novo. De24 a 29 de janeiro se celebraem Porto Alegre (Brasil) o Fórum Social Temático: Crise capitalista, justiça social e ambiental,  que reúne  milhares de ativistas, majoritariamente do Brasil e América Latina.

Se trata do evento mais importante este ano no marco do procedso do Fórum Social Mundial, tendo em conta  que este se celebra uma vez a cada dois anos e que o próximo vai ter lugar em janeiro de  2013, muito provavelmente em um dos países referência do despertar das resistencias no mundo árabe.

O Fórum Social Temático em Porto Alegre tem o duplo objetivo de fazer um  balanço deste ano indignado e preparar a Cúpula dos Povos Río+20, de 18 a 23 de junho de 2012, no Río de Janeiro em função da Cúpula das Nações Unidas Río+20, vinte anos depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento celebrada nesta cidade. Uma Cúpula dos Povos muito importante para denunciar as falsas soluções do capitalismo verde frente a  crise ecológica global, a falta de vontade dos países mais contaminantes para acabar com a mudança climática e a necessidade urgente de uma mobilização social de massas a favor da justiça climática.

Alternativas e convergencias

São centenas as atividades que acontecerão nestes dias em Porto Alegre, precisamente, a cidade que viu nascer o Fórum Social Mundial, onze anos atrás. E as temáticas abordam todo o espectro imaginável de alternativas sociais, econômicas, culturais… e das resistências ao capitalismo global. Desde propostas de educação popular, passando por iniciativas de economia cooperativa, a favor da soberania alimentar, alternativas feministas, experiencias contra a privatização dos serviços públicos, de denúncia da economa verde, entre muitas outras. Também  o Fórum Social Temático conta, como como acontece no FSM, com um Acampamento Intercontinental da Juventude, que acolherá atividades e reuniões de trabalho específicas.

Mas este Fórum Social Temático não vai resultar somente em um palco de debates e propostas contra-hegemôicas mas sim se dá muito  peso ao trabalho de debate e a convergência entre os distintos movimentos sociais participantes. Deste modo, foram criados 16 Grupos Temáticos que desde algumas  semanas e mais estes dias trabalham  para buscar pontos em comúm em uma agenda a favor da justiça social e ambiental que deve desembocar na Cúpula dos Povos Río+20. Read the rest of this entry →

Hoje às 11h50min, Gov @TarsoGenro e Cesare Battisti encontraram-se no Palácio Piratini #FST2012 0

Posted on January 24, 2012 by Everton Rodrigues
PORTO ALEGRE, RS, BRASIL: Governador Tarso Genro cumprimenta Ex-ativista italiano Cesare Battisti. Foto: Caroline Bicocchi/Palacio Piratini

PORTO ALEGRE, RS, BRASIL: Governador Tarso Genro cumprimenta Ex-ativista italiano Cesare Battisti. Foto: Caroline Bicocchi/Palacio Piratini

Os principais protagonistas do recente e finalizado processo diplomático entre Brasil e Itália, o ativista italiano Cesare Battisti e o Governador Tarso Genro encontraram-se, hoje por volta das 11h50min no Palácio Piratini.

Battisti, agora reconhecido como refugiado político, foi trazido pelos movimentos sociais, e participa do Fórum Social Temático para lançar seu novo romance “Ao Pé do Muro”. O livro será lançado no dia 26 de janeiro.

Espero encontrá-lo na marcha de abertura do FST.

“Como mudar o mundo?” Por Esther Vivas 0

Posted on January 20, 2012 by luciouberdan

Como mudar o mundo? Esta é a pergunta que se fazem milhares de pessoas empenhadas em mudar as coisas, a pergunta que se repete frequentemente nos encontros sociais alternativos… uma pergunta que como bem dizia o filósofo francês Daniel Bensaïd não têm resposta porque “Não nos enganemos, ninguém sabe como mudar o mundo”. Não temos um manual de instruções mas sim temos algumas pistas de como fazê-lo e algumas hipóteses de trabalho.

A luta na rua e nos movimentos sociais é a primeira premissa, já que não haverá mudanças espontâneas desde cima. Aqueles que hoje ostentam o poder não renunciarão sem mais a seus privilégios. Qualquer processo de mudança será fruto da tomada de consciência dos de baixo e do combate para recuperar nossos direitos desafiando desde a rua os que mandam. Assim demonstra a história.

Mas também é necessário construir alternativas políticas que avancem mais além da mobilização social, já que não podemos limitar-nos a ser um lobby daqueles que mandam. É necessário ser capaz de propor opções políticas alternativas antagônicas às hoje dominantes e que tenham seu centro de gravidade nas lutas sociais. Sendo muito conscientes de que o sistema não se muda desde dentro das instituições mas sim desde a rua, mas que não podemos renunciar a espaços que também nos pertencem.

Hoje as instituições estão sequestradas pelos interesses privados e do capital. Uma minoria social, que é a que detém o poder econômico, está totalmente sobre representada nas mesmas e conta com o apoio incondicional da maior parte de quem ostenta cargos eletivos. A dinâmica de ‘portas giratórias’: aqueles que na atualidade estão nas instituições e amanhã nos conselhos assessores das principais empresas do país é uma constante e uma realidade. Nos apresentam a ideologia neoliberal como socialmente dominante… e isto é falso. E por isso pensamos que vocês anti-capitalistas e anti-sistema seriam úteis nas instituições rompendo com o discurso político hegemônico. Demonstrando que “outros mundos” são viáveis e que “outra prática política” é tão possível como necessária.

Há que avançar em ambas direções e subordinar esta última a primeira, criando mecanismos de controle de baixo para cima e aprendendo com os erros do passado tanto da esquerda política como social. Partindo de que ninguém tem verdades absolutas, de que o processo de mudanças será coletivo ou não será, de que há que aprender uns com os outros, de que é necessário trabalhar sem sectarismos nem seguidismos e que frequentemente os rótulos separam mais que unem. Sem por isso cair em relativismos nem em renúncias ideológicas. Seguramente estas sejam as lições mais difíceis: romper com o domínio moral e ideológico do sistema capitalista e patriarcal.

E como mudar o mundo não é coisa de dois dias… mas sim que é uma tarefa de longo percurso, se requer constância, perseverança e de uma “lenta impaciência”, como assinalava de novo Daniel Bensaïd, é necessário ir avançando em nossas utopias desde o cotidiano em paralelo a mobilização social contra as políticas atuais e em defesa de outras medidas. Modificando o mundo em nosso dia a dia. Demonstrando com nossa prática que “outra maneira de viver” é tão possível como desejável. Alternativas desde a economia cooperativa e autogestionária, o consumo crítico e agroecológico, as finanças éticas, os meios de comunicação alternativos… são iniciativas imprescindíveis para caminhar até outro modelo de sociedade.

Sendo conscientes de que estas não são um fim em si mesmo mas sim um meio para avançar sem perder de vista um horizonte de sociedade mais justa e equitativa para todas e todos. Apostar por uma economia solidária no dia a dia e reivindicar também uma economia fiscal progressiva, que os que mais têm paguem mais, que se eliminem as SICAV, se combata a fraude fiscal; construir projetos agroecológicos e trabalhar também para que se proíbam os transgênicos, a favor de um banco público de terras; ter nossas poupanças em uma cooperativa de crédito mas reivindicar um sistema bancário público a serviço dos de baixo. O caminho se demonstra andando e não podemos esperar amanhã.

Ainda que não esqueçamos que uma mudança de modelo social requer a mobilização consciente da maioria da população e um processo de ruptura com o atual marco institucional e econômico. A irrupção da “revolução” no panorama político, a raiz das revoluções de Túnez e Egito, a pesar de suas debilidades e limites, é por isso uma magnífica e inesperada notícia que nos deparamos neste 2011.

Assim mesmo temos que situar nosso papel no mundo e o impacto de nossas práticas no ecosistema. Vivemos em um planeta finito, ainda que o sistema capitalista se encarregue de que nos esqueçamos frequentemente disso. Nosso consumo tem um impacto direto ali onde vivemos e se todo o mundo consumir como fazemos aqui um só planeta não bastaria. Mas igualmente nos estimulam a um consumismo desenfreado e compulsivo, prometendo-nos que quanto mais consumo mais felicidade, ainda que a promessa depois nunca se cumpra. Há que começar a propor que talvez possamos “viver melhor com menos”.

De todos modos, nos querem fazer culpados da práticas que nos impõem. Nos dizem que vivemos em uma sociedade consumista porque as pessoas gostam de comprar, que existe agricultura industrial e transgênica porque assim queremos… mentira. Nosso modelo de consumo se baseia na lógica de um sistema capitalista que produz mercadorias em grande escala e que necessita que alguém as comprem para que o modelo siga funcionando. Nos querem fazer cúmplices de políticas que somente eles se beneficiam. Afortunadamente o mito do mais e melhor começou a romper-se. A crise ecológica que vivemos acendeu as luzes de alarme e sabemos que esta crise climática tem suas raízes em um sistema produtivista e de curto prazo.

Hoje uma onda de indignação recorre a Europa e o mundo… rompendo o ceticismo e a resignação, que durante anos tem prevalecido em nossa sociedade, e recuperando a confiança en que a ação colectiva serve e é útil para mudar a atual ordem das coisas. Aprendemos da Primavera árabe, do “não pagaremos sua dívida” do povo islandes, do levante popular, greve geral após greve geral, na Grécia e agora o grito de Occupy Wall Street no “coração da besta” que assinala que frente ao 1% que manda somos o 99%. Os tempos se comprimem e se aceleram. Sabemos que podemos.

*Esther Vivas é co-autora de “Resistencias globales. De Seattle a la crisis de Wall Street”, entre outros livros. Artígo publicado na revista Iglesia Viva.
Tradução: Paulo Marques.

+info: http://esthervivas.wordpress.com/portugues

Porto Alegre e o desafio de fazer evoluir a democracia participativa direta 0

Posted on January 19, 2012 by Everton Rodrigues

Everton Rodrigues (@GnuEverton) (*)

Uma reivindicação começou a ser posta em prática há 24 anos em Porto Alegre e foi sendo construída ao longo de quatro gestões consecutivas (1989 a 2004) do PT frente à prefeitura da capital. O Orçamento Participativo e os conselhos municipais ajudaram a construir uma experiência de democracia participativa direta, uma democracia real que se tornou referência internacional. A cidade tornou-se berço do Fórum Social Mundial. Fazer essa experiência evoluir é um desafio permanente. Hoje, tanto os movimentos árabes pela democracia, como Ocupa Wall Street nos EUA e os “indignados” da Espanha também apontam as limitações e insuficiências da democracia representativa e defendem uma democracia real. A democracia liberal está em crise e o capital financeiro restringe o exercício da própria democracia representativa.

As experiências de democracia participativa em momento algum se propuseram a substituir a democracia representativa, mas sim aperfeiçoar os mecanismos de decisão de interesse público possibilitando a participação direta da população, superando todas as críticas que tentaram colocar um modelo de democracia contra o outro. Da mesma forma, nossos processos de participação digital não podem substituir fóruns de participação presencial, espaços estes formadores da consciência cidadã e de estímulo dos valores socialistas e da solidariedade.

O processo de democracia participativa, o Orçamento Participativo, juntamente com os conselhos municipais em Porto Alegre, somente foram possíveis a partir da disposição da população e também da demanda dos movimentos sociais e populares organizados, partidos políticos de esquerda e gestores públicos, que construíram as regras da participação e foram modificando-as ao longo do tempo. Mas quais são os próximos passos para fazer essa prática avançar?

Hoje, entre outras possibilidades, a internet aparece como uma ferramenta poderosa para ampliar e aprimorar a participação presencial (OP e conselhos temáticos e setoriais). Ela pode qualificar a transparência e a mobilização popular para os fóruns presenciais a partir da nossa experiência de participação em Porto Alegre.

Após a participação direta da população nas assembleias públicas do OP e nas conferências temáticas e setoriais de tomadas de decisões das prioridades das políticas públicas, a internet e os meios digitais podem cumprir uma papel extraordinário para agilização de informação, elaboração dos planos de investimentos e serviços, prestação de contas entre o governo e os fóruns de conselheiros, delegados e população em geral.

Os meios digitais também oferecem condições para a gestão democrática e participativa dos serviços públicos nas áreas da saúde, educação, gestão ambiental, limpeza urbana entre outros, que possuem recursos consideráveis e que os cidadãos podem interagir durante a prestação dos serviços numa via de duas mãos, governo e sociedade, com resultados para a melhoria dos serviços e da transparência. Para isto, este processo não pode ser somente consultivo, pois ele deve construir sistemas de participação de rede digital e presencial onde as pessoas possam praticar a cogestão entre governo e população.

Da mesma maneira que o Orçamento Participativo aperfeiçoou o sistema democrático, as ferramentas digitais oferecem condições para criar um processo de democracia em rede, conectado a ambientes interativos permanentes (participação digital) e integrado ao sistema de democracia participativa presencial.

Sem as facilidades de acesso, armazenamento e compartilhamento do “mundo digital”, muitas vezes os inúmeros fóruns presenciais repetem debates, sem considerar o acúmulo e a memória de discussões já realizadas em outros espaços. Um debate presencial repetitivo torna seus fóruns desestimulantes. Além disso, a complexidade e o caráter polêmico de certos temas podem estender os debates por horas ou dias, sem garantir espaço para que todas as posições se manifestem. A “vida corrida” também impede inúmeras pessoas de participarem dos fóruns presenciais.

É necessário envolver diferentes atores no ato de pensar a emancipação, através de ambientes de participação em rede. Um sistema de participação digital, se construído de forma colaborativa com a sociedade e integrado a um sistema de participação popular presencial, evoluirá para um sistema de participação em rede, que facilitará a mobilização da inteligência coletiva social também através da internet. Assim, todas as cidadãs e cidadãos que possuem algum tempo disponível em períodos diferentes dos fóruns presenciais também poderão participar dos debates, assim como interagir com participantes das instâncias presenciais, e os debates poderão ser continuados, aprofundados e sistematizados através da rede, qualificando e otimizando o tempo das reuniões presenciais.

As ferramentas digitais devem também ser capazes de segmentar os perfis dos participantes dos debates com a finalidade de aproximar pessoas e coletivos com interesses semelhantes, para que se comuniquem, criem e fortaleçam suas redes e também para os gestores públicos estabelecerem uma comunicação adequada de acordo com o interesse dos cidadãos.

Obviamente, muita coisa precisa ser feita para tornar esse objetivo realidade. As classes C e D possuem índices baixos de acesso apropriado à rede. Por isso, é necessário desenvolver um projeto de inclusão digital como parte do sistema de participação em rede, que ofereça banda larga gratuita de qualidade a todas as regiões da cidade e pontos de acesso público (laboratórios das escolas, lan houses, telecentros e pontos de cultura).

Mesmo com todos os limites da experiência do OP em Porto Alegre (que inspirou e foi modelo para centenas de experiências no mundo todo), é um exemplo a ser considerado em qualquer nova experiência de participação, justamente pela sua capacidade de gerar consciência política, e por ele próprio ser um projeto pedagógico educacional para a cidadania.

Em nenhuma pesquisa de comportamento dos brasileiros nas mídias digitais consta qualquer percentual sobre o uso das redes sociais para o debate político, sobre políticas públicas, governos, e muito menos sobre participação. Diante disto, um sistema de participação em rede (integrando processos presenciais e digitais) deve também contar com um projeto pedagógico de cidadania digital para ampliar a percepção das potencialidades das novas tecnologias da informação. Assim, os instrumentos interativos digitais serão capazes de aumentar as contribuições e o envolvimento de cidadãs e cidadãos em rede (no presencial e no digital) de forma complementar e contínuo para o desenvolvimento e qualificação das políticas públicas.

A participação direta é uma das principais formas de combater a alienação para promover uma cultura social solidária e justa, por isso, deve ser considerada um bem comum, que todas as instituições comprometidas com a democracia real devem construir e fortalecer. Precisamos combinar/articular diferentes pontos entre si, tais como: inclusão digital, banda larga, formação para cidadania digital, conexão com os existentes fóruns presenciais, software livre, dados abertos e ferramentas que facilitem pessoas com interesses comuns aproximarem-se também através da internet, para assim desenvolvermos um projeto de participação em rede. Levantei alguns que podem servir ao menos para iniciarmos o debate e reflexões sobre o tema, ainda pouco discutido de forma coletiva e participativa.

(*) Com colaborações de Eliane Silveira, Carlos Rosa, Ubiratan de Souza e Marco Weissheimer.



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